Mundo se aproxima do limite de 1,5°C de aquecimento global, alerta ONU
Retorno do El Niño pode intensificar temporariamente as altas temperaturas e os eventos climáticos extremos
Da Redação, com Vatican News
Planeta Terrra /Foto: NASA via Unsplash
O limite que a comunidade internacional tenta evitar há anos está cada vez mais próximo de ser ultrapassado. O aumento de 1,5°C na temperatura média global em relação aos níveis pré-industriais, estabelecido como uma referência central nos esforços internacionais contra a mudança climática, pode deixar de ser uma meta alcançável sem um período de “excesso” temporário, segundo análises recentes do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Diante desse cenário, a Organização das Nações Unidas (ONU) alerta que o desafio climático passa a ser também o de limitar a duração e a intensidade de uma eventual ultrapassagem do limite, reduzindo seus impactos sobre as populações e os ecossistemas.
Retorno do El Niño
O reconhecimento ocorre em um momento de crescente pressão sobre o sistema climático global. O retorno do El Niño pode contribuir para agravar temporariamente o cenário. O fenômeno atmosférico e oceânico provoca o aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico tropical e influencia as condições climáticas em diferentes regiões do planeta.
A possibilidade de um El Niño de forte intensidade, com pico previsto para o fim do ano, pode elevar ainda mais as temperaturas globais e aumentar a probabilidade de eventos climáticos extremos.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, resumiu a dimensão do cenário ao afirmar: “El Niño está assumindo proporções enormes diante de nossos olhos”. Segundo ele, diferentes sinais climáticos estão se sobrepondo em um planeta que já apresenta temperaturas elevadas.
“A ciência não deixa espaço a dúvidas: o planeta encontra-se em águas desconhecidas, que estão aquecendo”, afirmou Guterres. Com o aumento das temperaturas dos oceanos e da atmosfera, cresce também o risco de eventos climáticos extremos. Para o secretário-geral da ONU, “o mundo encontra-se em uma zona de perigo”.
Acordo de Paris
O El Niño, por si só, não é responsável pela mudança climática. O fenômeno natural pode, entretanto, intensificar temporariamente o aquecimento global ao ocorrer em um planeta que já apresenta temperaturas elevadas em razão do acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera.
A causa estrutural do aquecimento está relacionada principalmente às emissões de dióxido de carbono e de outros gases de efeito estufa. É essa tendência de longo prazo que mais preocupa os cientistas.
O limite de 1,5°C tornou-se uma das principais referências do Acordo de Paris, firmado em 2015. Na ocasião, os países se comprometeram a manter o aumento da temperatura média global “bem abaixo” de 2°C em relação aos níveis pré-industriais e a prosseguir os esforços para limitá-lo a 1,5°C.
A referência foi estabelecida devido aos impactos associados ao aumento da temperatura. Quanto maior o aquecimento global, maiores são os riscos de eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade, elevação do nível do mar, secas, crises hídricas e prejuízos à agricultura.
Conter o “excesso”
As emissões globais, no entanto, permanecem elevadas, enquanto os compromissos assumidos pelos governos ainda não são suficientes para colocar o planeta em uma trajetória compatível com as metas climáticas do Acordo de Paris.
Nesse contexto, ganha força o conceito de “excesso” (overshoot), utilizado para descrever um período em que a temperatura média global ultrapassa temporariamente o limite de 1,5°C e, posteriormente, pode voltar a ficar abaixo dele em cenários de forte redução das emissões.
A questão, portanto, deixa de ser apenas se o limite será ultrapassado e passa a considerar também quanto a temperatura poderá subir, por quanto tempo permanecerá acima de 1,5°C e com que rapidez será possível reduzir esse aquecimento.
Cada fração de grau tem impacto. A redução rápida das emissões pode limitar parte dos danos associados ao aquecimento. Por isso, a descarbonização da economia continua sendo fundamental, com a redução gradual do uso de combustíveis fósseis, a expansão das fontes renováveis, o aumento da eficiência energética, a eletrificação dos transportes e a diminuição das emissões dos setores industrial e agrícola.
Além de reduzir as emissões futuras, também poderá ser necessário retirar parte do CO₂ já acumulado na atmosfera. Reflorestamento, restauração de ecossistemas e tecnologias de captura e armazenamento de carbono podem contribuir para esse objetivo.
Essas medidas, contudo, não substituem a redução das emissões. Quanto mais lenta for a transição para uma economia de baixo carbono, maior poderá ser a quantidade de dióxido de carbono a ser retirada da atmosfera posteriormente.
Ao mesmo tempo, medidas de adaptação tornam-se cada vez mais necessárias. Entre elas estão cidades preparadas para enfrentar ondas de calor, sistemas agrícolas mais resistentes à seca, infraestrutura capaz de suportar chuvas intensas e sistemas de alerta para eventos extremos.
As mudanças climáticas, portanto, ultrapassam a dimensão ambiental e alcançam também as áreas econômica e social, com possíveis impactos sobre a segurança alimentar, a migração, a saúde pública e a desigualdade.
Alerta da ONU
O alerta da ONU, porém, não deve ser interpretado de forma fatalista. O El Niño é um fenômeno natural e, como ocorreu em episódios anteriores, deverá perder força. O aquecimento provocado pelo acúmulo de gases de efeito estufa, por outro lado, permanece enquanto as emissões continuarem elevadas.
Uma eventual ultrapassagem de 1,5°C não significa que os esforços para limitar o aquecimento deixem de ser importantes. Pelo contrário: cada décimo de grau evitado representa uma redução nos riscos e impactos associados à mudança climática.
O planeta atravessa uma fase de crescente instabilidade climática, marcada pelo aumento das temperaturas e pela ocorrência de eventos extremos. A “zona de perigo” mencionada por Guterres expressa justamente a redução da margem de segurança diante do aquecimento global.
O limite de 1,5°C pode ser ultrapassado, mas isso não significa que todos os cenários estejam definidos. O desafio passa a ser evitar que o aquecimento avance ainda mais e, sobretudo, reduzir o tempo em que a temperatura permanecerá acima desse patamar.
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Matéria produzida com curadoria editorial assistida por IA, a partir de pauta de noticias.cancaonova.com.