Por mais de uma década, Ahmet Davutoglu foi muito mais do que um nome no organograma do governo turco. Acadêmico de formação, autor da doutrina da "Profundidade Estratégica" — obra que reposicionou a Turquia como potência herdeira do legado otomano —, ele foi o cérebro geopolítico que Recep Tayyip Erdogan escolheu para traduzir ambições em política externa. Como chanceler entre 2009 e 2014, e depois como primeiro-ministro até 2016, Davutoglu não apenas executou a visão de Erdogan: em grande medida, ajudou a construí-la.
Sua saída do governo, em maio de 2016, foi apresentada publicamente como uma transição tranquila, mas os bastidores contavam outra história. Tensões sobre a concentração de poder em torno da presidência, o enfraquecimento do papel do premiê e divergências sobre a condução das negociações de paz com os curdos haviam corroído a relação entre os dois. Davutoglu saiu sem alarde — e, por um tempo, sem destino político claro. Em 2019, fundou o Partido do Futuro (Gelecek Partisi), numa tentativa de oferecer uma alternativa conservadora e democrática ao AKP que ele mesmo havia ajudado a consolidar.
O problema era estrutural. A Turquia de Erdogan havia sido tão eficientemente moldada em torno de uma liderança personalista que qualquer dissidência interna parecia, aos olhos do eleitorado, traição ou oportunismo. O Partido do Futuro nunca decolou nas urnas. Davutoglu, figura respeitada em círculos diplomáticos internacionais, mostrou-se incapaz de converter prestígio intelectual em capital eleitoral numa arena política cada vez mais polarizada e dominada pelo confronto direto entre Erdogan e a oposição laica.
Agora, ao se afastar da política partidária, Davutoglu encerra um ciclo que é, em si mesmo, uma aula de história contemporânea turca. Sua trajetória ilumina uma contradição central: os regimes de liderança forte frequentemente devoram seus próprios arquitetos. Quem ergue o edifício raramente recebe as chaves. A Turquia que ele ajudou a projetar no mundo — mais assertiva, menos ocidentalizada, consciente de sua herança islâmica e imperial — segue de pé. Ele, porém, observa de fora.
O legado de Davutoglu é, portanto, ambíguo e revelador. Foi ele quem articulou a linguagem com que a Turquia passou a falar de si mesma ao mundo. Mas a história, por vezes, reserva aos construtores o papel de andaimes: essenciais durante a obra, removidos quando a estrutura se sustenta sozinha.
Acompanhe a Recifes.net
Entre no Canal do WhatsApp da Recifes.net para receber noticias, bastidores e atualizacoes editoriais diretamente no WhatsApp.